Saúde

Alzheimer avança no Brasil e especialistas defendem diagnóstico precoce como prioridade nacional

Crescimento projetado de até 200% nos casos até 2050 coloca a doença entre os maiores desafios da saúde pública brasileira

O mês de fevereiro marca a campanha Fevereiro Roxo, que amplia o debate sobre três doenças crônicas sem cura: Alzheimer, lúpus e fibromialgia. Entre elas, o Alzheimer ocupa posição central diante do envelhecimento acelerado da população brasileira e do impacto direto na estrutura familiar e no sistema de saúde.

Doença neurodegenerativa, o Alzheimer provoca declínio progressivo das funções cognitivas, com prejuízo da memória, do raciocínio, do comportamento e da autonomia. É a principal causa de demência — conjunto de distúrbios cerebrais que levam à perda de habilidades intelectuais e sociais.

Dados da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) indicam que cerca de 6% dos mais de 15 milhões de brasileiros com mais de 60 anos convivem com a doença. O número tende a crescer nas próximas décadas.

Projeção de alta expressiva

Estimativas apontam que entre 1,2 e 1,76 milhão de brasileiros vivem atualmente com algum tipo de demência. Até 2050, o total pode ultrapassar 5 milhões, o que representa aumento superior a 200%. O Brasil figura entre os países de média e baixa renda com maior tendência de crescimento de novos casos.

O principal fator é a idade. O risco de demência aumenta de forma significativa com o avanço etário e alcança cerca de 43% entre pessoas com 90 anos ou mais.

O neurologista Paulo Ricardo Gonçalves Guimarães, da Clínica Vittá, afirma que o país enfrenta um cenário preocupante. Segundo ele, ainda existe déficit de informação e alto índice de subdiagnóstico. Estimativas indicam que mais de 80% dos casos de demência no Brasil não recebem diagnóstico formal.

“O Alzheimer não se resume ao esquecimento eventual. A doença provoca atrofia e degeneração cerebral progressiva. O diagnóstico precisa ser preciso e realizado o mais cedo possível”, afirma.

Sinais iniciais exigem atenção imediata

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Pequenos lapsos de memória podem indicar necessidade de avaliação médica. Esquecer objetos com frequência, repetir perguntas, deixar portas destrancadas ou perder compromissos recorrentes exige investigação.

Com a progressão da doença, surgem alterações comportamentais, desorientação espacial, repetição constante de histórias e comprometimento da rotina. Muitos casos chegam ao consultório em estágio avançado, o que reduz as possibilidades terapêuticas.

Entre os fatores associados ao aumento da incidência estão tabagismo, obesidade, diabetes, baixa escolaridade — que compromete a chamada reserva cognitiva — e desigualdade social. Apesar do componente hereditário, a identificação precoce permite intervenção mais eficaz e preservação da autonomia por período mais longo.

Desafio estrutural para o país

O envelhecimento populacional impõe desafio estrutural ao sistema de saúde. Para o especialista, o Brasil ainda não dispõe de estratégia nacional robusta voltada ao diagnóstico precoce e ao acompanhamento contínuo dos pacientes.

Embora não exista cura, os tratamentos disponíveis contribuem para controle dos sintomas e retardamento da progressão da doença quando iniciados nas fases iniciais.

A campanha Fevereiro Roxo reforça a necessidade de informação qualificada, atenção aos sinais iniciais e busca por avaliação médica especializada. Em um país que envelhece de forma acelerada, o Alzheimer se consolida como uma das questões mais urgentes da saúde pública brasileira.


Serviço


Fonte especialista: Paulo Ricardo Gonçalves Guimarães, neurologista da Clínica Vittá

Breve currículo:
Formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), atua em neurologia e neuropediatria, com atendimento voltado para cefaleias, epilepsias, TDAH, autismo infantil e adulto, doença de Parkinson, Alzheimer, ansiedade, distúrbios do sono, fibromialgia e dores em geral. Possui especialização em Harvard, nos Estados Unidos, e figura entre os maiores prescritores de canabidiol do Brasil.

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