Desastres naturais podem levar população latino-americana à pobreza, diz Banco Mundial

Posted On 02 dez 2017
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No Caribe, pelo menos um país por ano é atingido por um ciclone ou furacão. Quando considerados todos os terremotos do mundo, mais de 25% deles com magnitude 8.0 ou maior ocorrem no oeste da América do Sul. Os números detalham um cenário mais amplo e alarmante — de 1970 a 2014, a incidência de desastres naturais na América Latina triplicou. Fenômenos extremos, segundo relatório do Banco Mundial divulgado nesta semana (29), podem levar a aumento da pobreza.

Em levantamento sobre a relação entre emergências e miséria, o organismo internacional alerta que, em algumas comunidades latino-americanas e caribenhas, basta um desastre para levar milhares de pessoas à penúria. Isso porque catástrofes estão associadas à destruição da infraestrutura e meios de subsistência, bem como a oscilações da economia que tornam as parcelas mais pobres da população ainda mais vulneráveis.

Dados levantados pela instituição financeira indicam, por exemplo, que a taxa de pobreza aumentou em 5,5%¨em partes da Guatemala inundadas pelo furacão Agatha, em 2010. A tempestade levou 80 mil famílias para baixo da linha da miséria. O poder de consumo médio per capita registrou uma queda de 7,7%.

O Banco Mundial lembrou ainda o Furação Mitch, de 1998, que devastou 80 mil hectares de terras aráveis, a maioria delas utilizada pelos agricultores familiares de Honduras e Nicarágua — neste país, crianças de até cinco anos de idade vivendo na rota da tempestade tiveram 30% menos acesso a consultas médicas após a passagem do tufão do que meninos e meninas da mesma faixa etária em regiões intocadas pelo fenômeno.

No México, os mais pobres têm até três vezes mais chances do que a classe média de ser afetados por desastres naturais — cujas consequências incluem perda de moradia, de plantações e de gado.

Para o organismo financeiro, certos fenômenos naturais anteriormente mais raros já se tornaram um lugar comum na América Latina e no Caribe. São o caso das estiagens e das chuvas fortes. O documento cita a falta d’água no estado São Paulo ao longo dos últimos anos como desdobramento de estiagens cada vez mais recorrentes.

Para o Banco Mundial, o cenário é preocupante porque, apesar das conquistas na luta contra a miséria, quatro em cada dez lares na região são consideradas economicamente vulneráveis, correndo o risco de voltarem à pobreza. São famílias que não são mais consideradas pobres, mas que ainda não chegaram à classe média.

“Países precisam se preparar e construir resiliência para choques, de modo que não percam, em (apenas um dia), o que levaram anos para alcançar”, afirmou o vice-presidente do Banco Mundial para América Latina e Caribe, Jorge Familiar. A proporção dos que vivem em pobreza extrema caiu pela metade de 2003 a 2012, chegando a 12,3%. Quando considerados os cidadãos em situação de pobreza moderada, a taxa caiu de 41,1% para 25,3%.

O organismo financeiro também avaliou o impacto de choques “produzidos pelo homem” — crises econômicas associadas a variações da produção e do mercado, ondas de violência e conflito e crises institucionais causadas por escândalos de corrupção.

Uma pesquisa de 2006 recuperada pelo Banco Mundial revela que, entre as famílias deslocadas pelo conflito armado na Colômbia, houve uma queda no consumo estimada em 22% — o que afetou sua ingestão de calorias e nutrientes.

Na República Dominicana, um colapso financeiro no biênio 2003-2004 resultou em aumento da inflação, depreciação da moeda e crescimento da pobreza — que passou de 32% em 2002 para mais de 50% no auge da crise.

Citando desacelerações da economia do Brasil nos 1980 e 1990, o Banco Mundial lembrou estudos que mostraram que crianças brasileiras tinham chances mais altas de abandonar a escola e começar a trabalhar durante períodos de enfraquecimento das atividades produtivas.

No México, crianças tiradas da escola por conta de choques têm 30% menos chances de reingressarem nos sistemas de educação, na comparação com jovens que não deixaram o colégio.

Para contornar os efeitos trágicos desses episódios, o Banco Mundial recomenda o aprimoramento das redes de serviços públicos e de sistemas de alerta. Outras medidas incluem o estímulo ao crédito para acelerar a recuperação das comunidades após catástrofes. (ONU Brasil)

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